Poeira Digital

Tudo o que você sempre quis perguntar sobre cinema digital e nunca encontrou ninguém com saco pra responder.

Saturday, November 04, 2006




Cineastas de Bolsos Vazios

Realizar um filme pertence ao universo das metas inatingíveis para a maioria das pessoas. Mesmo para os cineastas profissionais, o ato de filmar, quase sempre é o resultado de uma longa e penosa preparação. Normalmente leva alguns anos entre "ter uma boa idéia para filmar" e chegar o momento de determinar o dia para o início do trabalho no set de filmagem. A criação do roteiro, o projeto de produção, a formação da equipe, são apenas alguns dos elementos que se agregam à "batalha" para o financiamento do filme. Na verdade eles serão os "melhores momentos" desde o momento que você deu início a sua produção. Mas fazer um filme também representa um empreendimento financeiro.

Geralmente, nada menos do que U$ 1.000.000 para um filme. Isto quando o filme é realmente muito barato. Não é incomum que um cineasta passe em média três a cinco anos sem filmar, até que os meios para um novo projeto possam ser reunidos. Entretanto, lentamente, esta realidade do trabalho de realizar filmes começou a mudar a três décadas.

Nos anos 70/80, foram feitos nos EUA alguns filmes extremamente baratos: "Eraserhead", de David Lynch; "Stranger than Paradise", de Jim Jamusch; "She´s Gotta Have Missing", de Spike Lee; "Male Noche", de Gus van Sant. Mais do que modelos, estes filmes foram considerados experimentos de produção, que dificilmente outros cineastas poderiam imitar.

A crise dos anos 80 nos EUA (era Reagan), fez o dinheiro para filmes independentes desaparecer.. "Slacker", feito com U$ 27.000 foi o precursor dos filmes de orçamento extremamente barato. Desde essa época, produções com micro-orçamentos brotaram por toda parte. Sem financiamento externo, muitos - ou a quase totalidade - desses filmes foram realizados com recursos e investimentos das famílias e dos amigos.

Em 1992 foram realizados filmes com micro-orçamentos: "Laws of Gravity", de Nick Gómez, por U$ 38.000; "El Mariachi, de Roberto Rodriguez, a escassos U$ 7.200; e "The Living End", de Greg Araki, com U$ 22.769. A carreira desses três filmes estimulou outros cineastas a procurar meios alternativos para realizar suas obras.

Nos EUA, um grupo de críticos de cinema associados ao Independent Film Channel, direcionou o olhar para jovens cineastas no começo da sua carreira. Nascia a Next Wave Films em 1997, dedicada à produção de filmes realizados fora do star system de Hollywood. Next Wave oferece recursos para cineastas que estão trabalhando com orçamentos bem baixos - definidos como não mais do que U$ 200.000. Muitos dos filmes foram realizados com menos de U$ 60.000. Next Wave pode prover até U$ 100.000 em fundos adicionais.

Ademais, fornecem toda ajuda na pós-produção, como transferência de vídeo para filme, ampliações (blow-ups), desembaraço de direitos autorais de músicas, negociações com laboratórios, e supervisionam problemas técnicos com áudio. Ajudam os realizadores a preparar a apresentação em festivais, formulam estratégias de marketing, provêm seguros, encontram exibição e procuram financiamento para os próximos projetos.

A idéia é trabalhar com muitos filmes de diretores novos e orçamentos baratos, ao invés de poucos diretores estabelecidos ou famosos. De qualquer modo, os fundos são apertados: apenas 4 filmes por ano.

Tecnologia Acessível
Os novos filmes digitais são produzidos com ferramentas que agora estão acessíveis a todos no mercado. Os cineastas de bolsos vazios estão filmando com câmeras de vídeo digital, gravando o áudio nos seus DATs, utilizando os mais avançados softwares de edição e de efeitos especiais e finalmente, mixando os filmes em computadores pessoais. Cada um desses elementos é a chave na nova produção digital de filmes, que possibilita aos realizadores fazer seus filmes de uma forma inteiramente nova e radical.

A chegada de câmeras digitais baratas criou uma nova expectativa para a produção de filmes. Pela primeira vez, muitos cineastas independentes vão poder utilizar câmeras que realmente capturam as imagens com boa qualidade, e que usam material sensível que não requer sistemas caros de processamento.
Não apenas a qualidade do vídeo melhorou. O processo de transferência para filme, possibilitando a gravação em vídeo e, depois da transferência, apresentar o resultado nos cinemas comuns e correntes, atingiu atualmente a mesma qualidade dos filmes produzidos em negativo. O preço da transferência ainda é alto, mas como os recursos para as demais etapas diminuíram, o processo torna-se compensador.

O número de festivais de filmes também aumentou e vai aumentar muito mais ainda nos próximos anos. Assim, um filme pode ser testado em vídeo durante algumas audiências e, caso desperte curiosidade na platéia, ser transferido para filme para futura e definitiva audiência no resto do país ou do mundo.

O importante é que mesmo no Brasil, agora é possível fazer um filme com...U$ 1.500... U$ 3.000... Isto é, o diretor vai ser só diretor e não um financista desesperado em completar um orçamento astronômico. Portanto, temos um artista frustrado a menos, porque agora ele pode filmar mais. O vídeo digital vai permitir que os diretores rodem seus filmes mais freqüentemente, permitindo uma prática saudável do seu trabalho, ao invés de só fazer um filme a cada 3 ou mais anos, como sempre aconteceu. Por si só, este fato já é uma revolução.

Não estamos assistindo a uma revolução clássica, no sentido de erigir uma utopia estética. Mas é uma revolução, no senso da utilização total dos meios tecnológicos, isto é, estamos falando da multiplicação das mídias e da sua convergência, e estamos falando da distribuição global de filmes através da rede eletrônica. As artes visuais alcançaram uma proeminência que nunca se viu antes. Basta visitar alguns sites na Net: vídeos, filmes independentes, animação gráfica, fotografias, hologramas, realidade virtual. Toda a Net é uma galeria inesgotável, exibindo instantaneamente o que se faz em todo o mundo.

Vamos então considerar as atuais dimensões da interatividade com a realidade: DVD, edição não-linear, animação 3D e exposição na Internet.

DVD (Digital Video Disk)
Os discos DVD vão transformar completamente o modo como filmes serão distribuídos. Com mais de 25 vezes a capacidade de um CD comum, o formato DVD oferece alta qualidade de vídeo, multimídia interativa e surround-sound.
Um longa-metragem pode ser codificado em um único disco, juntamente com material de divulgação e promoção: entrevistas com o diretor, técnicos e atores; making of do filme, e todo um menu de escolhas que se queira agregar.

No futuro brevíssimo, a operação normal em DVD vai ser a seguinte: estabelecendo todos os recursos, um software vai comandar as transições no vídeo, criar múltiplas versões em qualquer língua e gerar links interativos. Utilizando algarítimos MPEG, o computador examina cada fotograma e determina o nível de compressão consistente com a qualidade desejada de reprodução, e de acordo com a capacidade de memória do HD, o DVD permite que a própria narrativa do filme seja alterada: agrega-se linhas alternativas para a ação e se oferece a escolha ao espectador interativo. Inclusive múltiplos ângulos de câmera podem ser escolhidos no próprio momento da exibição. É uma questão de tempo, para que as possibilidades do DVD sejam determinantes quando o cineasta planejar fazer o seu filme.

Edição não-linear
Embora sem ser exatamente uma novidade, a edição não-linear necessita de um certo tempo e muita prática para demonstrar toda a alta-performance de suas capacidades. Leva tempo para adquirir todos os instrumentos - e torná-los operativos - como repartir o vídeo em camadas para fazê-las deslizar, encolher, saltar adiante, retroagir, aplicar os efeitos em progressão... Você vai editar e salvar inúmeras versões do corte de uma determinada cena, acessar instantaneamente todo o material, manipular as imagens e sons, produzir efeitos gráficos e de composição mais rapidamente e facilmente do que nunca. Na verdade, quase todas as operações são realizadas em tempo real. Nas mãos (ou dedos) de um editor qualificado, um sistema digital de edição pode ter a performance semelhante à do próprio raciocínio do autor funcionando. Esta é, sem dúvida, a sua maior beleza.

Uma boa maneira de começar a se instruir sobre o funcionamento e operação não-linear, pode ser através da prática no Adobe Premiere. Você pode utilizar o seu PC ou Mac para isso. Mais tarde, utilize o FinalCut, antes do passo definitivo para o Avid - plataforma de trabalho mais complexas. Assim, o seu treinamento vai ser menos difícil.

Animação 3D
Basta uma olhada nas prateleiras da sua vídeo-locadora, para se dar conta da quantidade de títulos de filmes que usam os recursos da animação 3D - ou computer-generated graphics: Toy Story, Bug´s Life, Little Stuart... Nesses filmes, a característica é a convivência perfeita entre imagens reais e as imagens CG. Muitas vezes, fica difícil dizer qual é qual. O filme Titanic usou mais atores CG do que reais - principalmente nas seqüências finais, quando o navio se parte, o casco inclina e os infelizes passageiros escorregam e caem de uma enorme altura no mar.

Os objetos 3D são modelados como esculturas, usando "wire-frames" digitais para dar volume e consistência às formas. Um esqueleto virtual é construído, com todas as articulações e depois se aplicam texturas e cores. As texturas de Stuart Little são tão delicadas e complexas, que um software apropriado foi designado somente para os movimentos dos pelos do simpático ratinho. Depois de construído, o modelo é posto no interior de um ambiente 3D - ou combinado com ação e ambiente "reais" através da magia da composição. Sem animação e composição 3D, Jurassic Park seria apenas uma comum e banal selva numa ilha tropical.

Exposição na Internet
A Internet é como a luz elétrica: quando você acende, ela vai para todos os lugares ao mesmo tempo. Se você for ver um filme na Net, milhões de pessoas podem estar vendo o mesmo filme, na mesma hora. E todos estes milhões, podem ver o seu filme também. Isto quer dizer que a audiência não cessa, e cada cineasta vai ter a sua audiência, mesmo o cineasta que nunca teria um filme seu apresentado no Cinemark.

Dividindo as experiências
É claro que os cineastas vão continuar aplicando suas mentes no desenvolvimento da história, no tempo certo do diálogo, na tensão entre as cenas. Ao invés de um conceito "espetacular" para as suas obras, os cineastas independentes que estão trabalhando com micro-orçamentos, precisam criar obras únicas, sensíveis, que brotem da sua própria experiência e de sua paixão pelo cinema. Isto significa que os roteiros e as histórias devem ter um teor de originalidade diferente, do que representar um ataque de alienígenas a Terra, com cidades explodindo e tudo o mais que nos acostumamos a ver nas superproduções.

Entretanto, agora, ao lado da atividade tradicional e obrigatória de caracterizar uma narrativa, o jovem cineasta deve lidar com níveis de compressão da imagem e se familiarizar com métodos operacionais envolvendo computadores junto com "ação ao vivo". Ele também precisa administrar um projeto criativo para a exposição da sua obra. Fazer um filme independente hoje em dia, tornou-se também uma forma pedagógica de demonstrar aos outros "como fazer os seus próprios filmes".

Ficando por dentro de tudo
Como você vai agarrar em suas mãos a revolução que está acontecendo diante dos seus olhos? Bom, em primeiro lugar, informe-se. Nunca tanta divulgação e informação complementar, acompanharam o crescimento de um processo de criação áudio-visual como a revolução digital agora: seminários, workshops, mostras, artigos, festivais, dicas técnicas, são apresentadas e oferecidas em toda parte. Na Internet, principalmente. E nos encontros e discussões, as informações e as experiências são compartilhadas por um número crescente de jovens realizadores e técnicos.

Não se sinta intimidado com tanta informação tecnológica. Lembre-se, que realizar uma obra digital significa que uma quantidade maior de informação deve ser absorvida por um número reduzido de pessoas em sua equipe. Isto é, sua equipe é um componente íntimo da criação das imagens. Ela precisa estar sintonizada, não somente em termos de uma precisão técnica, mas participando intelectualmente do seu projeto. Alguns filmes foram realizados com equipes mínimas: duas ou três pessoas. Portanto, mais papéis são assumidos individualmente durante a produção. Nesse momento, o cinema torna-se foco de uma profunda transformação na sua concepção: ele deixa de ser visto como um "produto industrial", para tornar-se uma verdadeira obra de arte, no sentido da criação de uma sinfonia de Mozart, de um quadro de Braque ou de um conto de Ítalo Calvino.

Com certeza, daqui para diante, os cineastas independentes vão explorar cada vez mais as opções para obter resultados "profissionais", sem os inconvenientes de uma produção e uma pós-produção pesando demasiadamente no fundo dos seus bolsos. Como conseqüência, haverá mais gente criativa tomando a iniciativa de fazer filmes.

1 Comments:

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Picture Researcher

9:53 AM  

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